Recém vindo de São João de Camaquã, José Theodoro Pereira, (1893 -1895: revolta federalista no Rio Grande do Sul)
assume a função de chefe de polícia da Villa de Santa Bárbara da Encruzilhada, distrito de Rio Pardo, graças a um bom relacionamento com a população local.
Tinha um compromisso, o de acabar com as tocaias promovidas por bandidos nos caminhos de Encruzilhada, compromisso esse que honrou, com a prisão do mais temido bandido da época. Este dormia na casa de uma amante que, ela, em combinação com o Theodoro, o avisou da sua presença. Theodoro foi efetuar a prisão do salteador sozinho, apesar de um de seus soldados ficar na espreita por solicitação dele. Quando abordou o indivíduo, que dormia com os pés para a porta, manifestou um princípio de reação querendo pegar a espada pendurada na cabeceira da cama mas, rendeu-se diante do revolver da autoridade. O caso ficou conhecido na vila como o bandido de cuecas, porque Theodoro nem sequer, deixou-o vestir as bombachas, o conduzindo desta forma para a cadeia. (Gumercindo ao lado de Aparício, ambos ao centro, na Revolução Federalista 1894)
Sentado junto aos degraus da entrada da cadeia, ficava, diariamente, (+-1894) a esperar a passagem de uma jovem estudante que a ele lançava olhares agradáveis aos seus sentimentos de homem solteiro. A aproximação entre os dois foi decisiva para começarem uma estória de amor que frutificou em vários filhos, dentre eles 4 irmãs, que muito deu o que falar.
Imagine, Maria Amabilia Rodrigues, que estudou bastante para a época, casando com um caboclo, de fala fina quando ficava brabo e que nunca frequentou escola, não teve uma boa aceitação de seus pais, tanto que, mais tarde, as terras que recebeu de herança eram direcionadas aos filhos com usufruto da Amabilia.
Nasce Dulce Brasilina Pereira a Dedé em 3 de fevereiro 1895.
Com a chegada do novo delegado enviado de Porto Alegre que veio para substituí-lo, Theodoro foi trabalhar na companhia Locomotora Encruzilhadense, diligência que fazia a troca de correspondências e passageiros entre a vila e a cidade de Rio Pardo. Diligência de tração a quatro cavalos andava a uma velocidade média de 16 km/h e os cavalos eram trocados em Pântano Grande numa estalagem junto ao importante cruzamento. Um caso que mostrou um pouco da sua personalidade foi o de atender a encomenda de um cavalo para o padre de Encruzilhada, ficou em falta a “marca” para o animal, esta dava credibilidade à origem do cavalo. Toda vez que Theodoro chegava a cidade em sua diligência, lá vinha o padre cobrar-lhe a tal “marca”. Cansado de tanto esquecimento do pedido do padre, o Theodoro, num rompante desabafo, tremendo o queixo, disse: “Já que queres tanto esta marca, levante a cola do cavalo que lá a encontrará!”
Por volta de 1897 nasce a segunda filha de meus bisavós, Olinda Pereira,
Nasce Aristeu Pereira em aproximadamente 1899.
Nasce Ondina Pereira em aproximadamente 1900.
Nasce Eraclides Pereira.
Nasce Lauro Pereira em aproximadamente 1905.
Nasce Bárbara Glací Pereira 25 setembro 1909, nome Bárbara recebido em homenagem a Santa que emprestava o nome a vila.
Com os filhos já crescidos (+-1918), a família, foi morar na fazenda das Pederneiras localizada perto da estação de Pederneiras, antiga estação de trem que foi inaugurada em 1883 para atender esta importante fazenda da região. A estrada de ferro que era linha tronco da VFRGS se estendia até Uruguaiana.
A fazenda que pertenceu a Inocêncio Veloso Pederneiras, falecido em 1891, tinha uma grande estrutura com muito trabalho, a Amabilia que alem de coordenar os trabalhos das empregadas da casa também alfabetizava as crianças. Os homens foram trabalhar na roça.
Olinda, que desde pequena era chamada de Olindinha, conheceu o Faustino Batista, homem da roça, com quem se casou e não tendo filhos biológicos o casal adotou quatro crianças, um casal de sobrinhos órfãos da irmã de Faustino e outro casal de crianças da raça negra.
A Dulce foi estudar em Porto Alegre onde cursou odontologia.
Ondina conheceu o Adão Mohr originário de Caçapava do Sul e formaram uma família com seis filhos, sendo que cinco nasceram em Encruzilhada e a mais nova em Canoas. Os três filhos homens faleceram em Canoas.
Adão era construtor, um pedreiro muito criativo, tinha facilidades para adestrar animais e criou coelhos em galerias de tijolos em baixo da terra. Tinha também habilidades com baralho de cartas em que fazia mágicas com ilusionismos. Certa vez impressionou o sobrinho Ramão com os comandos dados a um petiço em que o bicho respondia sim ou não, movimentando a cabeça após as perguntas efetuadas pelo Adão. Também, ensinou um cachorro a tomar o chapéu de pessoas que ele enticava, como uma forma de zombaria.
Vindo de Rincão Del-Rei para Encruzilhada, em 1923, Rodolfo Albino Klafke montou uma alfaiataria na vila, pois na localidade não havia outra, participava de uma banda com instrumento de sopro, talvez sax. Deixou para traz, em Rincão Del-Rei, pai, mãe e irmãos que lá tinham uma serraria e se distanciaram nos contatos. Neste ano, no estado do rio Grande do Sul, tivemos uma revolução em que Chimangos e Maragatos se confrontaram por onze meses. A população se dividia entre simpatizantes de um ou outro lado do conflito e, se mostravam, pela cor do lenço usado no pescoço.
O Rodolfo, tratado pelos próximos como “Alemão”, casou com a Bárbara Glací Pereira, “Bibinha”, ele quatorze anos mais velho que a jovem esposa deu início a uma prole de 12 filhos, seriam 13 se o primeiro não fosse natimorto. Este primeiro, ao nascer, deixou revolta na cabeça da irmã mais velha, a Dedé, então com 32 anos, bem aculturada, não aceitou as manhas da parturiente que levou para a cama natalina o papagaio e o gato de estimação para consolá-la das dores do parto. No segundo parto, o do Ramão, a Dedé foi enérgica com a Bibinha e não deixou as manhas correrem soltas, dando prioridades ao bebê que estava vindo ao mundo, com isso, em que tudo correu bem, o reconhecimento do casal foi o convite a Dedé para ser madrinha de batismo do recém nascido. De par com a Dedé o padrinho do Ramão foi o Memé, primo da Dedé e, por serem solteiros, houve incentivos sutis para que os dois namorassem, o que não se criou. Memé muito “pão-duro” deu um presente somente, para o afilhado, que em um dia, incentivado pela Bibinha esteve em seu armazém para umas comprinhas e se fazer lembrar para o padrinho que era véspera de Páscoa, ganhou uma cestinha de açúcar colorido, aquela do tamanho de um ovo de galinha que vinha enrolada em papel celofane. Acho, que esses tipos de cestinha existem até hoje, este, foi o único reconhecimento de padrinho para com o afilhado.
Na infância dos filhos da Bibinha, Encruzilhada não tinha água encanada, a água era buscada na Fonte do Pedroso que ficava a uns 100 metros aos fundos da casa, lá também se abasteciam os pipeiros ou aguadeiros que vendiam a água pela cidade em suas pipas puxadas a burros.
Dizia o poeta: “quem bebeu desta fonte, daqui não sai mais não, e quem não pode ficar, guarda a serra no coração”.
Acreditava-se também que beber a água da fonte, para as moças solteiras, logo encontrariam o casamento.
Disse-me o Ramão que a nascente que abastecia a cacimba ficava em um emaranhado de “unhas-de-gato” que daí a água era conduzida por um duto de tijolos, cobertos, para a fonte, esta, tinha uma torneira, que ficava normalmente aberta e despejava em uma cuba no chão que transbordava por um rasgo indo o excedente para um banhado.
A Dulce atuando como dentista nas fazendas da região estava se realizando financeiramente e, solteira, empregava o dinheiro em bens que beneficiavam a mãe, irmãs e irmãos. Na rua Cel Teodoro Pereira, a Dedé adquiriu um terreno que construiu três casas, uma ao lado da outra, da direita para a esquerda, a primeira para si, no meio para a Bibinha que já tinha filhos e a terceira para a mãe que era viúva. Entre a casa da mãe e a da Bibinha tinha uma fração de aproximadamente 8 metros de terreno livre. A Amabilia, como boa avó que era, assumiu para si a criação do Ramão, então com 7 anos (1934), pois tinha renda própria proveniente do arrendamento das terras herdadas de seu pai, em usufruto, que lhe rendiam 900 mil reis (900$000) anuais. Como referência, o salário mínimo mensal, para os estados mais pobres, que foi instituído em 1938 era de 90 mil reis mensais (90$000).
A Dedé seguia atendendo os serviços dentários percorrendo as fazendas entre Encruzilhada e Caçapava que para isso adquiriu um Ford T, conhecido como Ford Bigode devido ao formato das duas alavancas dispostas à esquerda e a direita do volante. Não sabendo dirigir, era auxiliada por alguns conhecidos, que sabendo dirigir, a conduzia no atendimento aos seus pacientes. O fim do Ford Bigode foi a troca dele por uma “ponta de gado”, mais ou menos 30 terneiros que foram colocados nas terras da mãe.
Nestes tempos, a Dedé foi morar em Caçapava onde montou um gabinete de dentista (era assim chamado os consultórios odontológicos) e morar no mesmo prédio aos fundos. Dedé conheceu Alcides Ilha Fonseca, natural de Dom Pedrito, então, escrivão da Coletoria Federal que morava quase em frente a sua casa, ao lado do cinema (antes do cinema Lux). O conhecimento se deu através da sua esposa que necessitou dos préstimos odontológicos da Dedé. Com a viuvez do Alcides, ele veio a interessar-se pela dentista que aceitou casar com ele em 1937. Dedé, ficou grávida da sua primeira e única filha com 39 anos e, a Amabília, foi a Caçapava para ajudá-la na gestação e o parto da filha. Como o Ramão era inseparável da avó, foi junto morar em Caçapava na casa da sua madrinha, ficaram por lá até a mudança da Dedé e do Alcides para Caí (desde 1938 o município de São Sebastião do Cahí passou a se chamar Caí retornando ao nome anterior em 1958). Alcides foi promovido a Coletor Federal de Caí assumindo a vaga de seu antecessor que havia falecido. A nomeação foi feita pelo então Presidente da República Getulio Vargas.
Em 1945, quando a Lurdinha, filha do casal, tinha 7 anos o Alcides faleceu de enfarto, tomando banho. Cabe registrar, com a sua morte súbita, o interventor que veio o substituir, encontrou a documentação impecavelmente organizada e sem pendências que, com isso, deixou uma imagem de um homem exemplar para a Coletoria.
Com a viuvez da Dedé a Amabilia foi novamente morar com a filha e, novamente o Ramão foi junto. Em pouco tempo mudaram-se para Esteio, na hoje, Av. Presidente Vargas e, o Ramão foi servir à pátria no quartel 19RI de São Leopoldo entre 1947 e 1948. Recém dado baixa do quartel, o Ramão perde a avó em 1949 entristecendo ele, a madrinha e a neta que moravam juntos. Ramão, usando o “fumo-de-luto”, assim se chamavam a tarja preta colocada na manga da camisa, simbolizando perda de ente querido, conhece a Eriga Koch em São Leopoldo, nas idas e vindas na rua Grande.
Jornal "A Federação" - 21 de novembro de 1918.
Descrição:
Em Caçapava
Está grassando na cidade a gripe epidemica (Influenza espanhola), da qual tendo aparecido o primeiro caso na semana passada tem-se propagado rapidamente, felizmente de fórma muito benigna.
Ha na cidade mais de cincoenta casos, cujos moradores estão atacados de influenza.
Alguns dos grippados, porém, já se acham em vias de franco restabelecimento.
Em diversos pontos do municipio têm apparecido casos de influenza.
O coronel Balthazar de Bem e Canto, intendente do municipio, com o fim de evitar a maior difusão da epidemia, resolveu instituir as visitas domiciliares para ser feita a inspeção relativa as limpezas dos pateos e quintaes. Ficará esse serviço a cargo dos empregados municipais srs. Valeriano Rodrigues Teixeira, Alcides Ilha da Fonseca, Alcides de Oliveira e João francisco de Souza.
Foi publicado um boletim da Intendência Municipal avisando a população da pratica daquella providencia e concitando os habitantes a auxiliarem a acção do governo municipal.