Ele foi com 7 anos para Curitiba e eu com 27. Não moro mais nesta cidade, mas, o que o TEZZA escreveu abaixo é o que penso desta bela capital.
• A presença de Curitiba
Curitiba é muito forte em meus livros. A cidade tem algumas peculiaridades: não tem carnaval, as pessoas gostam de filas, são mais reservadas, aqui temos 3 ou 4 amizades que duram 40 anos; é uma cidade mais densa, mais resistente. Aqui, você fica fora da vida literária. Há muitas vantagens de se viver em Curitiba. A cidade também te dá muitos desafios: se você não sair de Curitiba como escritor, você está morto, você não existe no mundo; é preciso ser editado no Rio e São Paulo. Somos uma espécie de gauleses, isolados, irredutíveis. Não há contato, troca permanente. Curitiba tem uma particularidade muito daqui mesmo e tem um certo fio que é comum no Dalton, um certo olhar crítico, corrosivo, uma certa impiedade na crítica, um certo sentimento de desamparo, uma certa idéia de solidão, a idéia de estranheza ao lugar em que está. A cidade é intimista e nos fecha para dentro de casa. Curitiba funciona muito com mitos para se esconder neles. Curitiba é uma invenção do Jaime Lerner que vai fazer 40 anos. Uma boa invenção. A cidade ganhou uma certa marca muito bem trabalhada como marketing, conhecida mundialmente. Uma vez, estava em Roma e um engenheiro italiano me disse: "que maravilha, você mora na terceira melhor cidade em qualidade de vida do mundo". A cidade está oculta nessa marca. Quando cheguei a Curitiba, aos 7 anos de idade, a cidade não tinha nenhuma marca; era conhecida vagamente como "cidade universitária". Tinha também uma coisa muito engraçada: era chamada de "cidade sorriso". O slogan da cidade era esse. Já o curitibano é muito obediente. Eu me lembro de uma coisa divertida sobre o uso do cinto de segurança. Houve uma época que ninguém era obrigado a usá-lo. Curitiba foi uma das primeiras cidades a exigir o uso do cinto de segurança pelos motoristas. No dia seguinte à lei, metade da cidade o estava usando. Um mês depois em Porto Alegre, teve uma passeata em frente à Câmara Municipal para protestar contra aquele arbítrio que queria obrigar as pessoas a usar cinto de segurança. Era uma questão política. E no Rio de Janeiro, os camelôs estavam vendendo camiseta branca com o cinto desenhado. Então, são três maneiras de ver a questão. Se Curitiba baixa um decreto, você vai obedecer. Este é um traço da cidade. Você sai daqui e acha tudo bagunçado, quer voltar logo para Curitiba. Pegar um ônibus em Florianópolis, por exemplo, é uma tragédia. Aqui, é tudo organizado. Briguei muito com estes traços de Curitiba. Mas desisti. Hoje, sou um curitibano integrado. A cidade venceu.
CRISTOVÃO TEZZA
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